A importância de escolher bem quem cuidará da ferradura do seu unicórnio

A terminologia “unicórnio” tem sido utilizada no ramo do empreendedorismo para denominar as startups que se destacam e alcançam valores bilionários, a exemplo de Nubank (US$ 4 bilhões) e PagSeguro (US$ 9,4 bilhões). Denominar uma empresa bem sucedida utilizando um ser mitológico raro que existe apenas no imaginário tem coerência quando falamos de um setor que encontra seu maior valor naquilo que é, de certa forma, intangível: ideias as quais, em resumo, estão voltadas para inovação, bases de dados e propriedade intelectual (marcas e softwares).

No entanto, a famosa “ideia de um bilhão de dólares” pode perder todo seu valor se não for devidamente arquitetada. Para isso precisará contar, no mínimo, com ótimas parcerias. Ao visualizar um ambiente criativo e disruptivo, dificilmente o que se concebe no ideal comum é algo que seja “tradicional”. E é exatamente neste aspecto que os escritórios de advocacia começam a perceber que precisam se reinventar, pois, para serem parceiros dessas startups, precisam ter velocidade e entender a maior disposição para riscos.

Diferente de um empreendimento comum onde o modelo de negócios já existe (ex.: uma padaria ou um mercado), a startup é um novo negócio, ou seja, está em busca de um modelo de negócios viável, escalável e rentável. Então, os tipos de desafios das startups acabam por ser, muitas vezes, incomuns. Isso porque o modelo de negócio ainda não existe e a startup precisa descobri-lo. E aqui entram os advogados.

Mas a ideia geral que as pessoas têm de escritórios de advocacia é de um ambiente sisudo, travado e conservador. Ou seja: de um lado estão as startups com milhões de ideias para colocar em prática e, do outro, as bancas de advogados, estas mais ligadas ao tradicionalismo, mas que igualmente precisam ter dentro de seus espaços uma equipe com mentalidade disruptiva e ágil.

E, ao empreender, uma vez que as ideias não têm fronteiras, elas esbarrarão não apenas com leis brasileiras, mas também com normas estrangeiras que podem se tornar obstáculos. A nova advocacia, igualmente disruptiva e criativa, além de parceira dos clientes, precisa, no caso das startups, fazer uma verdadeira gestão de riscos e nivelar o caminho nada fácil do empreendedor brasileiro, como se pode ver.

Alguns dos maiores desafios das startups estão em definir modelos de negócio que podem ser protegidos (operacionalmente, legalmente, comercialmente, intelectualmente), planejar questões societárias (partilhas societárias, novos investidores) e riscos trabalhistas.

Nesta nova advocacia, o discurso do “não é possível fazer isso” perde espaço. Os escritórios, inclusive os tradicionais, que passarem a entender que para esses empreendedores, o importante é orientá-los sobre quais caminhos tomar para que consigam chegar onde querem com a menor exposição a riscos possível, saindo à frente dos seus competidores. E isto é importante, pois essas pessoas criativas e disruptivas sabem que, para alcançar a ideia formulada, eles precisam correr riscos e assumir responsabilidades que outros não foram capazes ou não tiveram coragem.

Um escritório de advocacia que verdadeiramente se preparou para trabalhar com startups fez a lição de casa e, ao identificar essa “dor”, passaram a melhorar a velocidade da gestão de risco do cliente. Nem sempre a maior “dor” dos empreendedores é a falta de assessoria jurídica, mas o que se pode afirmar é que quando ela existe, de forma simples e rápida, faz com que aquela startup esteja bem à frente das demais.

Mas para que isso aconteça, é necessário que a comunicação esteja afinada. Portanto, qualquer exagero no “juridiquês” é dispensável, pois poderá minar essa relação diante do exagero na linguagem rebuscada e demasiadamente formal. O escritório que atua com esse segmento precisa entender que o formalismo, o tradicionalismo e o “juridiquês” em excesso apenas o afastarão das mentes disruptivas.

Afinal, o conhecimento sobre direito não é o suficiente. É preciso conhecer sobre negócios, ter interdisciplinaridade, disposição para mudar e enfrentar padrões, estar sempre atento a inovações e, especialmente, boa capacidade de se relacionar com pessoas.

Este último aspecto, inclusive, é extremamente importante, pois apesar de muitas startups inovarem e terem vínculo intenso com a tecnologia, inteligência artificial e robótica, elas sabem reconhecer o valor do ser humano. Portanto, além de possuir  excelente quadro técnico, o advogado precisa saber lidar com as pessoas com quem se relaciona, pois a parte técnica, se depender das próprias startups, os próprios robôs se encarregarão disso até certo ponto.

Diante disso, percebe-se que a parceria que se formará entre startup e advogado será intensa e ambas as partes terão que reconhecer que todos precisam ceder um pouco para que o negócio dê certo. Se em uma mão as startups geralmente não possuem recursos suficientes para contratar escritórios de renome, em outra os escritórios de renome que ainda não entenderam que aquelas empresas requerem investimento, ficarão para trás.

Ou seja, é possível que ambos conversem, façam negócios juntos, tornem-se parceiros e, em um futuro próximo, ambos construam uma relação de “ganha-ganha”. Portanto, ao final, a visão empreendedora é de todos os envolvidos nesta relação. Isso faz com que o negócio de ambos se torne mais forte, pois todos partilham do mesmo ideal, o de transformar a startup não só em um unicórnio, mas em algo que torne a vida das pessoas ainda melhor.